Domingo, 12 de Dezembro de 2010
Mel da Terra Quente DOP - Características e Valorização

Mel da Terra Quente DOP - Características e Valorização

Paulo A. Russo Almeida

Departamento de Zootecnia - UTAD

 

A apicultura é das poucas actividades económicas que não apresenta qualquer impacto negativo para o ambiente. Pelo contrário, ela desempenha um papel ecológico fundamental e insubstituível, sobretudo através da polinização, cujo valor é muitas vezes superior ao auferido pelo apicultor no comércio dos produtos apícolas.

Trás-os-Montes e Alto Douro é uma região sem focos de poluição relevantes, com extensa área de terrenos incultos e florestais, onde abunda uma enorme diversidade de plantas angiospérmicas, que lhe confere uma aptidão natural elevada para a prática da apicultura. Nesta região são produzidos três de nove méis DOP (Denominação de Origem Protegida) portugueses: o Mel do Parque Natural de Montezinho, o Mel de Barroso e o Mel da Terra Quente sobre o qual versa esta comunicação. As DOP foram criadas mediante legislação da União Europeia, no sentido de registar e defender os nomes de produtos alimentares de “qualidade superior”, com características especiais (sabor, origem, ...), com o intuito de os valorizar comercialmente e estimular sistemas de produção mais amigos do ambiente. Incentivou, ainda, a certificação associada ao cumprimento do respectivo caderno de especificação desses produtos, numa lógica de consolidação da confiança dos consumidores nos sistemas de qualidade, que impulsionariam desta forma o valor dos produtos e o rendimento económico dos produtores.

O registo do Mel da Terra Quente como DO (Denominação de Origem) teve lugar em 1994, pelo Despacho n.º 30/94, requerido pela entidade gestora, a Cooperativa Agrícola de Alfândega da Fé. Em 1996, a designação passou a DOP ao abrigo do Regulamento (CE) nº 1107/96. Posteriormente, o Agrupamento de Apicultores do Nordeste solicitou, por sua vez, a gestão da referida designação, a qual lhe foi concedida pelo Despacho n.º 9083/2000. Mais recentemente, a gestão desta DOP foi atribuída à Cooperativa dos Produtores de Mel da Terra Quente e Frutos Secos, C. R. L. pelo Despacho n.º 11857/2006. O cumprimento do caderno de especificação é garantido pela SATIVA - Organismo Privado de Controlo e Certificação (Aviso nº 5374/20069). A área geográfica de produção do Mel da Terra Quente inclui os concelhos de Mirandela, Vila Flor, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro, Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Carrazeda de Anciães, Vila Nova de Foz Côa e Valpaços.

O Mel da Terra Quente é caracterizado por apresentar uma cor de Comprimento de Onda Dominante entre 570 e 575 nm (amarelo), um sabor suave e um aroma característico. No seu espectro polínico prevalece o pólen de Papilionáceas (Cytisus multiflorus, Cytisus striatus, Retama sphaerocarpa, Genista florida), facto que não é de estranhar, pois estão amplamente disseminadas em Trás-os-Montes; estas espécies são, no entanto, predominantemente poliníferas. Contudo, é ao rosmaninho (Lavandula pedunculata), planta nectarífera, por excelência, que se deve as características peculiares do Mel da Terra Quente, razão pela qual o caderno de especificação estabelece um valor mínimo do pólen desta espécie de 15%, podendo ser atribuída a designação “Rosmaninho” quando essa percentagem superar os 35%. Estão igualmente bem representadas as Cistáceas (Cistus ladanifer, C. psilosepalus e C. salvifolius), as Boragináceas (Echium spp. e Pentaglotis sempervirens), as Resedáceas (Reseda luteola e Sesamoides canescens), as Fagáceas (Quercus spp. e Castanea sativa), as Rosáceas (Crataegus monogyna e Rubus spp.), as Campanuláceas (Jasione montana e Campanula rapunculus), etc. Relativamente às características físico-químicas, o Mel da Terra Quente apresenta valores de Humidade inferiores a 17%, de Acidez Livre inferior a 20 meq/kg, de Açúcares Redutores entre 65 e 70%, Sacarose Aparente inferior a 15%, de Cinzas inferior a 0,3%, Índice Diastásico superior a 4 na escala de Schade e Condutividade Eléctrica inferior a 0,3 mS/cm(1).

A criação dos Méis DOP teve, entre outras, a finalidade de dinamizar a produção e valorizá-los como produtos de características especiais. Volvida mais de uma década, parece que a concretização desses objectivos, ficou muito aquém das expectativas. A análise das estatísticas de produção e comercialização dos méis DOP, publicados pelo GPP (Gabinete de Planeamento e Políticas), relativamente ao período de 1997 a 2007, mostra, com algumas excepções, que os valores destes indicadores, se situam muito abaixo do que seria previsível e aceitável. As entidades gestoras das designações de mel DOP têm, portanto, ainda muito trabalho pela frente. É fundamental reforçar a sua representatividade, fomentar o associativismo e envolver mais os sócios nos objectivos a atingir. Porém, não podemos esquecer que o preço do mel será sempre o incentivo mais eficaz à mobilização dos apicultores. Assim, urge acima de tudo, implementar circuitos de comercialização e estratégias de marketing, a fim de garantir um bom escoamento do produto a preços compensatórios.



publicado por melterraquente às 23:28
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29


posts recentes

...

X - Seminário Apicola da ...

...

...

16 - 02 - 2013 Macedo ...

VIII - Seminário Apícola ...

...

VII - Semiário Apicola da...

VI - Seminário Apícola da...

FORMAÇÃO

arquivos

Setembro 2013

Abril 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Setembro 2011

Maio 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds